Side Effects (of living and being me)



Irene Ravache, atriz brasileira

Por: Gustavo Klein


A atriz Irene Ravache fala da vida de atriz e produtora cultural, da experiência de trabalhar com novos atores e de seu início da televisão, como repórter cultural.
Aos 61 anos e considerada um dos grandes nomes do teatro brasileiro, Irene Ravache transita bem em dois outros meios: o cinema e a televisão. Ela acaba de participar de uma novela global (Belíssima), começa em breve a gravar a minissérie Amazônia - De Garcez a Chico Mendes e, ao mesmo tempo, produz a peça As Turca, que será encenada em Santos no início de dezembro (e da qual não participa como atriz). Na entrevista a seguir, Irene fala também de outros assuntos, como religião, literatura policial e da vida de empresária.

A peça As Turca, produzida por você, está há um ano em cartaz, inicialmente em São Paulo e agora no Rio de Janeiro. Como aconteceu essa mudança, da atriz para a empresária que lida com os bastidores?
Isso aconteceu ainda na década de 80, quando comecei a produzir minhas próprias peças. Acho que é um caminho natural do ator, para mim foi quase automático: conforme atuava, foram surgindo os convites para dirigir, o que fiz, e depois para produzir. Gosto muito disso, que me deixa vinculada ao teatro mesmo quando estou atuando em outros meios.

Como vai equacionar seu tempo, agora, com as gravações da minissérie Amazônia, da Globo, e a produção da peça?
Da mesma maneira que fiz durante todo esse ano, com as gravações de Belíssima. Descobri, com o tempo e a experiência, que para qualquer coisa dar certo é preciso que nos cerquemos de gente competente. Em As Turca, minha função é de produtora executiva, apenas, então não há muito problema.

Sobre o que fala a peça?
É a história de três irmãs, descendentes de árabes cristãos, que se reúnem para fazer um almoço de domingo. É ambientada, claro, em uma cozinha. A tal família está passando por crise financeira grave e, enquanto as duas irmãs mais velhas vêem no retorno para o Brasil de um parente que estava no Líbano, a mais nova busca alternativas mais realistas para a solução do problema. Tudo é uma desculpa para falar, metaforicamente, de questões atuais e traçar um paralelo entre o cotidiano do interior e a cultura árabe. É estrelado por três ótimas atrizes: Cláudia Mello, Juçara Morais e Andréa Bassit que, aliás, é também a autora do texto.

Como será seu papel na minissérie Amazônia - De Galvez a Chico Mendes, da Rede Globo, que estréia em meados do ano que vem? Sei muito pouco sobre o projeto ainda. Muito, muito pouco para poder falar. Eu vou entrar na segunda parte da trama e meu personagem será a Beatriz, que na primeira fase é feita pela Deborah Bloch. As gravações já estão acontecendo, no Amazonas e no Pará, e alguns atores até voltaram para casa. A minha parte será rodada no Rio de Janeiro. É só o que sei até o momento.

Você é uma atriz que circula bem entre os três meios: teatro, cinema e televisão. Há preferência por algum?
Eles são tão diferentes, exigem disponibilidades tão distintas! Acho que o ator longe do teatro fica preguiçoso. A televisão e o cinema têm microfones. E a expressão corporal fica bastante restrita.

Não há espaço, então, para criação?
É isso. Teatro deixa o ator em estado de alerta constante. A novela tem um esquema muito profissional, primeiro são gravadas as externas, depois o que fica em estúdio, as coisas não são feitas na ordem. No cinema, isso é ainda pior e menos linear, não se tem idéia do que se está gravando, nunca se começa pela primeira cena, o ator só tem consciência do trabalho quando vê o resultado final. Então, acho que teatro é que é o meu meio. Tem mais espaço para criatividade.

São, já, 40 anos na TV. O que falta fazer?
Falta muita coisa, eu ainda tenho muito o que aprender. A última novela que fiz, Belíssima, foi muito boa nesse sentido, de educação e aprendizado, justamente porque trabalhei com muitos atores jovens. Não sou adepta dessa filosofia de que os mais velhos é que sabem mais e por isso têm que ser ouvidos sem questionamentos. Não é assim que a coisa funciona, isso depende de cada pessoa, de seu talento, de suas motivações, de sua formação. Há muitos atores e atrizes veteranos que são pretensiosos, preconceituosos e até chatos. Não se renovam, viram pregadores de regras. Ao mesmo tempo, vejo muitos jovens estudiosos, com potencial, que se dedicam e evoluem. Então, há sempre uma troca bastante positiva.

Nesses 40 anos quais são os trabalhos que considera mais importantes?
É difícil falar de um personagem só. Na televisão tive vários bons momentos. Em Beto Rockefeller, de 68, por exemplo, novela em que eu fazia a irmã do personagem principal, do Luiz Gustavo. Outras duas novelas legais que fiz, ainda na Tupi, foram A Viagem e O Profeta, que curiosamente foram reeditadas pela Globo, uma delas sendo exibida atualmente. Mas fiz muitas novelas conhecidas, como Elas Por Elas, Sol de Verão, Champagne, Sassaricando e Cara a Cara. Participei da minissérie, que acaba de ser reapresentada pela Globo, A Casa das Sete Mulheres. No cinema, fiz filmes como Doramundo e Ed Mort.

Seu início na televisão se deu no telejornalismo. Como foi essa experiência?
Foi interessante. Eu fui chamada pelo Sérgio Britto para participar do Grande Teatro Tupi, uma ótima experiência. Um diretor da TV me viu e convidou para participar de um programa na linha cultural. Era feito ao vivo, durou dois anos e foi muito bom fazer.

Você teve outra experiência com teleteatro, recentemente, no SBT, não?
Sim, mas não há nem comparação possível entre os dois trabalhos. O da Tupi era de excelente qualidade, trabalhava textos dos grandes autores teatrais do Brasil e do mundo inteiro. No SBT, a coisa era péssima. O núcleo de dramaturgia, depois de começar muito bem, produziu besteiras que desperdiçaram bons atores e atrizes.

Você inaugurou o núcleo de dramaturgia do SBT, com a novela Éramos Seis. E, aliás, também participou das primeiras experiências da nova dramaturgia da Rede Record. É possível comparar esses núcleos entre si e que potencial você vê para uma efetiva concorrência ao padrão Globo de qualidade?
Acho injusta qualquer comparação. Injusta com a Globo e também com as outras emissoras. A Globo adquiriu um know-how que não se consegue de uma hora para outra. É fruto de muito trabalho, de anos de dedicação, da inspiração de centenas de profissionais que passaram ou estão por lá. Fiz boas novelas fora. No SBT não havia como dar errado. A direção da novela era do Newton Travesso. O texto era da Maria José Dupré com adaptação do Rubens Ewald Filho, que é extremamente competente. Ele também supervisionava a produção. E o restante do elenco ajudava muito. Foi fácil dar certo. Mas, depois, as eminências pardas tomaram conta da dramaturgia do canal e as besteiras foram se acumulando. Na Record, o texto era bom, mas a novela foi mal produzida, tinha muita gente se intrometendo, gente da igreja que controla o canal. Atualmente acredito que as coisas tenham mudado por lá. Mas estaria sendo leviana se afirmasse que sim, porque, falando sinceramente, não vejo as novelas da Record. Acho, enfim, que quanto mais gente fizer novelas, melhor. A Bandeirantes está se aventurando, também. Somos profissionais e quanto mais espaço para trabalhar houver, melhor.

Seu contrato com a Globo dura mais dois anos. Quais são os planos para depois das gravações de Amazônia?
Quero primeiro pensar apenas em gravar a minissérie. Mas já tenho convites, como do Ulisses Cruz, que vai dirigir a próxima novela das 18 horas. Tenho outro para fazer teatro em Portugal, no qual só vou pensar no ano que vem.

Nos momentos difíceis da vida, muita gente se apega à fé. Qual a importância dela na sua vida?
(pára e pensa por muito tempo). Fé é uma força, um prumo. É uma escolha, e de forma alguma fruto de imaginação. Eu fui criada no catolicismo mas, quando rezo o Credo, pulo aquela parte que diz "creio na Santa Igreja Católica". Porque não acredito na Santa Igreja Católica. Ela é responsável, historicamente, por atos que são um horror aos olhos de Deus e uma vergonha ao que Cristo ensinou. A Inquisição, por exemplo. Mas gosto de rezar, e gosto ainda mais de orar dentro de templos, me importando apenas o conceito de que são todos a casa de Deus. Gosto também dos rituais das religiões, do cerimonial. Acho aquilo tudo importante. O Bar Mitzvá para o garoto judeu, ou a Primeira Comunhão para o católico. É preciso ter a cerimônia, caso contrário tudo aquilo vira lenço de papel.

Dá tempo de ter hobbies mesmo com o trabalho pesado na sua produtora e como atriz?
Tenho poucos e, ao mesmo tempo, não me fecho a nada. Sei muito mais do que não gosto do que do que gosto. Ler, por exemplo, é uma paixão. Leio muito e de tudo, só não gosto de ficção científica. Textos de teatro, por exemplo, ou os de filosofia, que adoro. Ou romances, especialmente os policiais. Li todos os livros da Agatha Christie e do George Simenon (os do Inspetor Maigret) e praticamente tudo o que escreveram Fernando Pessoa e Clarice Lispector. Mas não faço distinções, às vezes até um livro ruim traz uma ou duas páginas que fazem sua leitura valer a pena. Não tenho preferências, também, nem em música nem em filmes.

Como é sua relação com Santos, que é a cidade-natal de seu marido?
Vou de vez em quando, menos do que gostaria. Viajo mais ao Guarujá, mas tenho uma relação toda especial com Santos, que amo, até por ser carioca. O santista lembra o carioca no que ele tem de melhor. Seu humor é espetacular e ele é mais educado que o pessoal do Rio de Janeiro. Gosto das praias, dos jardins, e quero agora conhecer o Centro Histórico da Cidade.

Fonte: AR REVISTA - JORNAL A TRIBUNA - SANTOS/SP