John Neschling, regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Ele fala, claro, sobre música, e também sobre sua carreira
Por: Gustavo Klein
John Neschling é um caso clássico de brasileiro cuja carreira o tornou mais conhecido lá fora do que na própria terra natal. O filho de imigrantes austríacos que vieram ao Brasil para escapar da guerra, nascido no Rio de Janeiro, comandou algumas das maiores orquestras européias e, desde 1997, é o diretor artístico e também o regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Na entrevista a seguir, ele ainda fala sobre as polêmicas que envolvem sua trajetória (incluindo seu salário na Osesp e a experiência com a seita do santo daime) e, claro, de música clássica.
A programação da orquestra para 2006, o ano Mozart, por marcar os 250 anos de seu nascimento, privilegia o compositor de alguma forma?
Não, não teremos algo especial. Pensamos em Mozart todos os anos, é um dos nossos cavalos de batalha, sempre foi, então é uma prioridade regular. Não foi necessário fazer nada além do que já é regular, porque Mozart sempre teve um lugar especial na nossa programação. Para este ano, temos uma agenda bem variada, que cobre todos os estilos, desde as obras mais conhecidas e desejadas até as mais interessantes e pouco executadas.
Quais são as próximas viagens da orquestra?
Em outubro, iremos aos Estados Unidos pela segunda vez, serão 14 concertos. No começo do ano que vem faremos uma turnê extensa pela Europa, com as principais capitais: Viena, Zurique, Genebra, Lisboa, Madri... E, ainda em 2007, teremos uma viagem um pouco menor, com 10 concertos, pela América Latina. Em 2008, são duas turnês previstas, ambas pelo Brasil: uma para o Sul e Centro-Oeste e outra para o Norte-Nordeste. Em 2009, já é confirmada pelo menos uma para os países do Oriente.
Essas viagens têm uma diferença fundamental em relação às que eram feitas antigamente: agora a Osesp é contratada, recebe para tocar, quando antes as viagens eram subsidiadas. Mudou muito?
Não estamos ganhando, mas pelo menos não estamos perdendo dinheiro. Não há gasto, ao menos. Viajamos contratados por grandes instituições de concertos, para tocar em casas lotadas de público local. Não vamos patrocinados pela embaixada, isso acabou. Somos uma orquestra que é chamada para as grandes salas, para grandes públicos, pela qualidade do trabalho.
Como é o processo de educar o público para ouvir música clássica?
Não acho que seja exatamente isso. A consequência pode até ser esta, mas não acredito que seja uma causa nossa. Não partimos com o objetivo de educar o público. Nosso dever, nossa função social e cultural é apresentar uma palheta, o mais diversificada possível, de música erudita para uma camada ampla da população – já que somos subsidiados pelo Governo e podemos fazer concertos relativamente baratos. Está aí a grande educação do público. Não há, de outra forma, a intenção de educar. Não somos uma escola ou um conservatório.
Mas quando a orquestra toca para crianças o objetivo é criar público futuro. Isso não teria um caráter educativo, também?
Queremos, sim, desenvolver o interesse delas pela música erudita. Mas não podemos confundir as coisas. A clássica, afinal, nunca foi e nunca será a música popular. Acho que é um objetivo falho desejarmos fazer da nossa linguagem algo que interesse a todas as pessoas, porque ela exige uma série de outras características que vão além da simples vontade de se divertir. Há que se ter mais conhecimento, calma interior, interesse cultural... Não é algo de simples acesso e fruição. É um pouco mais sofisticado, o que não quer dizer que a pessoa tenha de ser rica ou privilegiada economicamente para gostar. A orquestra tem hoje uma capilarização grande dentro da sociedade, temos perto de 11 mil assinantes, gente que veste a camisa da orquestra.
Ainda em relação à educação, a Osesp iniciará, em agosto, a primeira turma de sua recém-criada academia. Foi a falta de músicos bem formados que motivou a novidade?
A falta de músicos de qualidade é um problema antigo. Sentimos isso há muitos anos, nas nossas audições. Cada vez menos músicos brasileiros estão preparados para integrar os quadros da Osesp. Isso se dá, em grande parte, devido à falta de grandes conservatórios e escolas qualificadas. Há, ainda, uma visão equivocada, de que a música deve ser objeto de estudos universitários. Existem, evidentemente, matérias que se encaixam nisso, mas não acho que necessariamente o ensino de piano, violino, violoncelo ou fagote seja disciplina universitária. É muito tarde, isso precisa começar na infância. Uma criança aprende a falar com 2 anos, não com 17. Há uma visão distorcida do que deve ser o ensino de música no País.
Então a Osesp vai tomar sob sua responsabilidade essa formação?
Não serão pessoas que começarão a estudar conosco, afinal. Para podermos criar uma geração de músicos de orquestra teremos que ir atrás dos talentosos que estejam entre 14 e 18 anos e dar neles um banho de orquestra, de instrução, mesmo. Serão, certamente, garotos e garotas que já tocam o instrumento com certa proficiência e têm talento, reconhecidamente, mas não o conhecimento colateral de música, que lhes permita serem profissionais completos. Então, além de aprimorá-los e fazer com que eles se preparem para a carreira em orquestra – que é uma perspectiva belíssima –, iremos também instruí-los em cultura, estética e estilo, para torná-los artistas completos.
A alternativa seria trazer músicos de fora?
Esse era o futuro, indesejado, que teríamos pela frente, se essa realidade não mudasse. Seria das duas uma: uma orquestra praticamente estrangeira ou, lástima das lástimas, nenhuma Osesp, por falta de músicos de reposição. Nada do que fizemos é invenção, simplesmente aplicamos receitas mais do que aprovadas em outras grandes instituições do gênero. A partir de agosto teremos os primeiros oito alunos bolsistas. E, semestre após semestre, este grupo será aumentado de mais seis a oito estudantes, até completarmos quarenta e poucos alunos que formarão o corpo discente da academia. Se é que vamos achar oito pessoas por semestre aptas a ter essas aulas, porque não seguiremos a filosofia do puro preenchimento de vagas.
Como fica o orçamento da orquestra ao sabor dos ventos políticos?
A Osesp é, sim, um projeto caro, assim como todos os grandes projetos culturais de qualidade. A lógica é a óbvia: qualidade custa caro. Mas só em termos pecuniários, e não se você pensar em termos mediatos. Pode-se aferir lucros que não são contábeis e financeiros. A relação custo-benefício só é perversa no aspecto financeiro, no dinheiro. Mas, em termos de ganho social, cultural e turístico, é extremamente generosa.
Sim, mas falo da questão da troca de governos e de prioridades. O senhor fala de uma programação da orquestra já confirmada até 2009. Uma eventual troca de partido no poder não afetaria essa agenda?
Quero acreditar, sinceramente, que a Osesp ultrapassou essa fase de que é completamente dependente da boa vontade dos governantes. Ela é uma realidade cultural nacional. Acho que espelha uma vontade cultural do País. Produzimos benefícios, tanto internos quanto externos, suficientes para que não aconteça de um governante mais desavisado ou menos interessado possa, com uma penada, prejudicar esse trabalho. Hoje, quero acreditar que a Osesp não oscila mais ao sabor das vontades políticas. Até porque somos uma fundação, que possui um contrato de gestão com o Estado. Não temos, portanto, medo do ano que vem. Não somos tão frágeis como éramos há quatro, cinco anos.
Os salários da orquestra são, hoje, compatíveis com os do resto do mundo?
Acho que sim, pode-se dizer isso. Talvez não sejam tão altos em termos absolutos, mas em termos relativos certamente, porque o Brasil não tem o custo de vida do Japão ou da Suíça, por exemplo. O músico da Osesp, hoje, é celetista, tem todas as garantias de um trabalhador normal. Devolvemos dignidade a ele, respeito. Além disso tudo, tem um excelente local de trabalho.
O seu salário também foi motivo de polêmica, no passado, mas a realidade mostra que, pelo trabalho desenvolvido, a remuneração em qualquer outra parte do mundo seria algumas vezes maior. Essa fase já foi superada?
Se eu estivesse fazendo um trabalho compatível com o que faço aqui, ganharia três ou quatro vezes mais, lá fora. Nesse sentido, a minha relação custo-benefício é muito perversa, mas há a compensação. A Osesp é minha vida, hoje. Com nenhuma outra orquestra tive a relação que tenho com ela. Nem poderia, porque aqui eu fiz tudo: criei, imaginei, idealizei, projetei e realizei. Ouso dizer que muito poucos regentes do mundo tiveram essa chance. Talvez, durante a Segunda Guerra Mundial, alguns grandes maestros nos Estados Unidos fizeram isso, quando chegaram da Europa e construíram em Cleveland, Filadélfia, Chicago e Boston, grandes orquestras, que já existiam, mas que tomaram um novo rumo com sua chegada.
Qual é sua carga de trabalho diária?
Eu dedico à Osesp cerca de 90% do meu tempo e da minha cabeça. Não do meu tempo útil, eu falo das 24 horas do dia, mesmo. Eu sonho com a Osesp quando estou dormindo, faço as refeições pensando na Osesp, acordo com a orquestra já na cabeça e, às vezes, vou para casa para estudar mais. A carga de trabalho é absurda e também errática. Entro aqui às 9 da manhã e, por vezes, saio perto da meia-noite. É uma profissão que exige muito, mas a Osesp é a menina dos meus olhos.
Sendo uma relação de paixão, fica muito mais fácil suportar essa carga, não é?
É, sim, uma relação de paixão, mas é mais do que isso, beira a familiar, de responsável, mesmo. É algo fortíssimo. De amor e ódio, também.
É como naquele filme do Federico Fellini, Ensaio de Orquestra?
Esse filme é genial, por extrapolar a situação da orquestra para a sociedade. Ele, na verdade, é uma parábola do que acontece na sociedade. E, nada melhor do que uma orquestra para servir de metáfora, para falar das tensões que existem em relação à autoridade. Não acho que seja a descrição correta de um ensaio de orquestra, mas chega bem próximo do que é uma relação entre comando e comandados.
Pois é: como fica essa relação de amizade, de família, quase, que existe entre o maestro e os músicos da orquestra? Tem a hora em que essa autoridade, que o regente tem de fato, precisa ser imposta...
Você pode perguntar isso a um pai, também: como fica a questão dos pais com os filhos em relação a autoridade e amor?
Mas ela não se encontra, também, relativamente deteriorada, tanto na família quanto na escola? Como é a relação com quem não tem essa vivência de lidar com a autoridade?
Isso não é verdade, eu não concordo. Essa relação existe, ainda. Ela muda, claro, mas os pais ainda têm autoridade sobre os filhos. Eles podem exercê-la ou não. Podem achar que é melhor ter uma infância e uma juventude sem autoridade. Temos visto por aí, aliás, qual é a consequência disso. A minha experiência pessoal com a orquestra é muito especial, uma relação mais longa que eu criei. Sei da vida de cada um, de onde vieram, para onde vão, conheço os que são casados, divorciados etc.
O senhor é conhecido como alguém de princípios muito fortes, que raramente cede no que diz respeito a eles.
É uma característica minha, não sei se é uma vantagem. Não saberia ser de outra maneira, e não digo isso de forma convencida. Não foi uma decisão racional, é que não sei trabalhar de outro jeito. Não saberia voltar ao Brasil, depois de ter uma carreira estabelecida lá fora, se não tivessem aceito minhas propostas. Coloquei condições bem claras, quase egoístas, no sentido de que não deixaria o certo pelo duvidoso. Ou trabalharia de acordo com os meus princípios ou não valeria a pena. Acho que sou, sim, muito coerente com o que acredito, e procuro sê-lo, sempre.
Qual é o papel do maestro na orquestra?
No meu caso, o papel foi muito maior do que a função tradicional do maestro, de ensaiar a orquestra e de aprimorar os integrantes técnica e musicalmente. Fui uma pessoa que propôs o projeto de criar uma realidade musical diferente em São Paulo. Um centro musical, que engloba não só a orquestra, mas uma academia, uma editora, projetos educacionais, discos, viagens, um coro infantil, um profissional, a criação da Sala São Paulo... Aí o papel do maestro extrapolou, de longe, o tradicional.
O sr. nasceu em 1947 e foi adolescente, portanto, na época da contracultura. O que lhe fez se interessar por música clássica em um momento em que toda a tradição era contestada?
Acho que música clássica é resultado de um interesse de infância. Alguns até despertam a partir dos 17, 18 anos...claro que isso pode acontecer. Mas não é o comum. Crescer em uma família que houve música erudita regularmente, que oferece o gênero às crianças, esse é o segredo. É só acostumá-las à linguagem, que é mais sofisticada. Eu tive essa vantagem, esse privilégio. Então, a contracultura não teve muita influência. Era uma época de movimento estudantil forte, de contestação de autoridade, mas não afetou meu amor pela música. Passei por todas essas fases independentemente dos meus valores musicais.
A escola teria um papel nessa educação musical?
No meu caso teve e foi muito importante, mesmo eu tendo aula de música fora dela. Acho que uma das falhas do ensino brasileiro é justamente essa, terem acabado com o canto orfeônico nas escolas. A Educação Artística é muito relegada a um segundo plano, apreciação musical não existe, coros são muito poucos. Dão mais valor às matérias técnicas e à Educação Física, que também são importantes, claro. Se relegou a um segundo plano a visão da história da arte, da música, do teatro, que considero fundamental para a formação completa do jovem.
Como foi a infância no Rio de Janeiro?
Foi normal, não teve nada de especial. Não fui menino prodígio, nem mantido à parte de nada. A única diferença que havia era o fato de eu ser filho de imigrantes, judeus, então tinha uma ligação com outras línguas, com o diferente. Nesse sentido, minha visão do mundo foi influenciada, mas de resto não foi uma infância digna de nota. Fui ao colégio, pratiquei esportes, tinha amigos, namoradas. Uma infância normal.
Com que idade foi estudar na Europa?
Fui com 17 anos, depois da escola. Acabei o curso clássico, no colégio Andrews, do Rio de Janeiro, e fui estudar em Viena.
Sozinho?
Sim, sozinho. A partir dessa idade nunca mais voltei a viver em família. Evidentemente tinha muito contato com meus pais, era filho único, mas nunca mais tive aquela vivência de família, a não ser a que eu mesmo criei. Fiquei até os 27 anos na Europa, depois voltei ao Brasil e morei outros 10 anos por aqui. Retornei à Europa e vivi mais uns 15 por lá, até voltar de vez, já para São Paulo, para me dedicar ao projeto da Osesp, a convite do Mário Covas. No início, eu ainda vivia na Europa, mas aos poucos o trabalho foi me envolvendo e me mudei definitivamente para cá.
A sua formação musical lá fora incluiu aulas com o Leonard Bernstein...
Sim, mas estudei, sobretudo, com o Swarowsky, em Viena, que foi meu grande mestre. Frequentei oito anos a Academia de Música de Viena, na qual me formei regente. Depois fiz cursos, inclusive com o Bernstein, nos Estados Unidos, mas não me considero seu aluno, de fato. Tive uma formação com muita base. Nada superficial.
Seu contato com cinema é bastante amplo, não?
Fiz muitas trilhas, mas meu contato com cinema foi muito circunstancial. Começou logo depois daquela minha primeira experiência na Europa. Quando voltei ao Brasil, queria reger, mas via muito poucas possibilidades disso acontecer. Comecei a fazer música incidental para teatro e, automaticamente fui também para o cinema. Tive a sorte de fazer alguns bons filmes, incluindo aí Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia, Pixote, O Beijo da Mulher Aranha e certamente compus uma música aceitável. Ganhei alguns prêmios e, quando voltei a reger novamente, me afastei do cinema e do teatro. Nunca completamente, mas agora de forma bem mais espaçada, por falta de tempo, mesmo.
Também fez trabalhos para a TV?
Alguma coisa. A trilha incidental de Os Maias, a minissérie. Também para a Globo compus a trilha incidental da novela Esperança, em 2002.
Foi em outro trabalho no cinema – Bonitinha, mas Ordinária – que o senhor conheceu a atriz Lucélia Santos, que foi sua mulher?
Conheci no teatro, antes. Tive uma relação longa com ela e um filho, o Pedro, que tem hoje 23 anos.
Pedro Neschling, que agora segue os passos da mãe e já estrelou duas novelas globais, A Lua Me Disse e Da Cor do Pecado. Agora muita gente o conhece como "o pai do Pedro". Como é isso?
Acho ótimo. Um certo grupo sempre me conhecerá pelo que eu sou. Isso só ampliou o universo das pessoas que me conhecem. Me sinto muito orgulhoso, o Pedro, afinal, é também uma criação minha. É um menino de ouro, está fazendo seu caminho e tenho com ele uma relação de paixão muito, muito íntima e bem resolvida.
Sua experiência com a seita do santo daime, na década de 80, também marca sua biografia. É difícil falar dessa fase?
Sempre fui muito curioso, em tudo. Nunca tive medo de experimentar. E busquei, também, sempre a espiritualidade. Levei tempo para achar. Voltei há alguns anos para o judaísmo, conscientemente, com muito entusiasmo e paixão. A Patrícia, minha mulher, também se converteu. O santo daime foi uma das minhas experiências de busca. Mas foi algo passageiro, que nunca me entusiasmou. Foi uma fase pouco madura, em que procurava essa mistura do esoterismo com a espiritualidade. Passou.
Voltando à música de cinema: ela é bem utilizada?
Compor para uma série, como foi o caso de Os Maias, é bem diferente do que para cinema. Você cria temas e algumas atmosferas musicais que são utilizadas indiscriminadamente ao longo de toda a produção. No cinema, a música é feita para a cena específica. Acho que hoje, no Brasil, já existem trilhas de muita qualidade. Antigamente era tudo muito amadorístico. Aliás, no mundo inteiro foi assim, só com o desenvolvimento da cultura cinematográfica e do cinema como forma de expressão é que começaram a surgir os grandes músicos desse segmento. Aqui, levou mais tempo.
Na sua opinião, é correto afirmar que a trilha para cinema é a música orquestrada mais popular da atualidade, a que mais chega às massas e a que permanece nos ouvidos do público?
É verdade. A música do John Williams, Howard Shore, Nino Rota, Enio Morricone... É uma linguagem específica que faz muito sucesso, justamente porque é ligada à emoção.
Está entre seus planos futuros parar com tudo e se dedicar apenas à composição?
Eu penso nisso há muito tempo. Mas vou dizer uma coisa: acho que não sou compositor. Estou sempre pensando que o que tenho a dizer, musicalmente, não é transcedental. Tenho um pouco de medo de escrever banalidades. O compositor produz quando, ao menos ele, acha que o que tem a dizer é importante, seja a respeito dele próprio, do mundo ou de outra pessoa. Então, não consigo me sentir obrigado a compor. Me sinto com a obrigação de reger. Faço isso por vocação, mesmo. Composição não é. Se eu o fizer, certamente, não será para mostrar aos outros.
Mas não dá orgulho ter na família um parente do calibre do compositor austríaco Shoenberg, autor de um dos grandes tratados de harmonia da história da música, e que é seu tio-avô?
Não sei. Não me dá muito orgulho, não. Primeiro porque não tinha muita noção da importância do Shoemberg até me tornar um músico maduro. Mas o orgulho é o mesmo, por exemplo, que todos os brasileiros sentem por saber que o Ayrton Senna nasceu aqui, que o Pelé também, que Jorge Amado e Rubem Fonseca são brasileiros. Por acaso nasci nessa família, não vejo mérito pessoal qualquer nisso.
A visibilidade que a Osesp ganhou no mundo está fazendo com que a música erudita brasileira seja mais conhecida lá fora?
Acho que sim, e esse é um dos grandes pontos positivos dela, o fato dela ter aplainado um pouco o caminho de músicos brasileiros de orquestra e da música brasileira lá fora. Estamos ganhando prêmios com nossos discos, a Osesp tem sido convidada para tocar no mundo inteiro, grandes maestros e solistas querem e pedem para vir ao Brasil e se apresentar conosco. Acho que abrimos uma avenida importante.
De que forma essas conquistas mudaram sua vida?
Isso não mudou muito minha essência, continuo sendo um cara de família, um sujeito bem casado com a escritora Patrícia Mello, com um sentimento muito forte e um desejo de solidão também muito arraigado, uma necessidade de estar sempre lendo e se atualizando. Sou muito interessado em política, em literatura, em artes plásticas e, sobretudo, na natureza, no silêncio. Essas coisas não mudaram em mim.
Dá tempo de ter hobbies mesmo com a agenda cheia?
Ler é o principal deles. Leio histericamente. Todos os dias e sem parar. Meu interesse é cultura, história e literatura, também, sem parar.
E de ouvir outros tipos de música que não seja a clássica?
Ah, dá, sim. Sempre dá. Quanto mais você faz, mais tempo tem para fazer coisas. Ouço muito jazz e também MPB. Gosto também de cinema. Organizando bem o tempo, dá para fazer tudo. Até dormir. Gosto muito de dormir, também.
Como alguém com conquistas tão marcantes lida com a vaidade?
A vaidade faz parte do artista. Mas, com o tempo, sublimamos isso e a transformamos em algo criativo. Se virarmos escravos dela acabamos fazendo bobagem. Devemos ter orgulho do resultado, do que conseguimos atingir, e não de nós mesmos. E mais: quanto mais estudo, mais chego à conclusão de que não sei muita coisa, de que nunca vou saber muito, nunca saberei tudo o que quero, nem serei tudo o que quero ser, nem conseguirei atingir todos os objetivos que almejo. Dessa forma, a vaidade perde o sentido.
Fonte: AT Revista, do jornal A Tribuna, de Santos/SP







